segunda-feira, julho 04, 2005
O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino
Li em poucas penadas este romance de Italo Calvino. Foi a minha primeira incursão pela obra deste aclamado escritor italiano. Ocorreu-me que este escritor tem dois nomes bastante significativos, o que, sei-o bem, não vem a propósito.
Trata-se O Cavaleiro Inexistente de um romance de cavalaria, ou melhor de uma paródia a este género literário, aliás, de vetustez assinalável. Deve ter surgido com a nobre arte da cavalaria. Há, claro, algo mais nesta obra que essa paródia. Escrita em 1952, é fácil de adivinhar a tendência do autor na altura, não querendo, longe disso, situar ou catalogar o romance. No entanto é recorrente a sensação do existencialismo literário ao ler-se este livro.
Não há nesta sensação qualquer indício de exclusividade, ou seja, é mais que isso. A questão do Ser é tema central da obra, mas não único. O estilo fluído e rápido, a habilidade da freira que narra a obra e que nos surpreende no fim, conferem ao Cavaleiro Inexistente um cariz de obra circular, completa, suficiente. Para nada serviria o existencialismo, caso Calvino o não quisesse. Mas quis e ainda bem.
Falarei agora das personagens. Em primeiro lugar, Agilulfo, o cavaleiro que é só a armadura, que não existe. Trata-se de um homem, enfim, um pouco metafísico, mas um homem, que representa o ideal da cavalaria. O arquétipo do cavaleiro heróico e errante. Para tal, a ausência de estômago, logo de fome e sede, a falta do restante trato digestivo, logo de mundanas necessidades, de órgãos sexuais, logo de luxúria e excitação animalesca, confere à personagem todas as qualidades necessárias. Se a tal acrescentar a destreza com as armas, a impenetrabilidade da sua armadura, sempre impecável, e a sua extrema organização e zelo, temos o cavaleiro perfeito. Perfeito, logo, não existe.
Trata-se de uma obra silogística. Se não tem corpo, não tem fraquezas, então é perfeito. O mesmo se passa com outras personagens, com o Gúrdulu, por exemplo, que pela força de tanto existir se confunde com o que existe para além dele. Lembra-me o Sartre. Isso mesmo, o Sartre. Que ainda era pouco conhecido em 1952, mas já o era pelo Calvino.
A Bradamante, cavaleira misteriosa, sensual e perfeita, ou quase, que desdenha à força de tanto ter experimentado, de todos, menos de Agilulfo. Todos os outros paladinos tinham estômago, cheiravam mal, tinham desagradáveis apetites sexuais. Eram humanos. A dualidade “humano – divino” e a busca por uma das partes por excesso da outra, aparece com a cavaleira.
Cavaleira por quem Rambaldo, flamante jovem cavaleiro com desejo de vingança, se apaixona. A satírica secção de Vinganças gerida pelo Agilulfo é anedótica. Kafka também ajuda Agilulfo nos seus excessos de zelo. Este rapaz tem tanto de divino como de humano, é a conclusão que tiro. É um Homem. Que no fim fica com Bradamante.
Apresentadas as personagens, resta dizer que este livro se engloba num conjunto de três, sendo um dos quais o famigerado Barão Trepador, que conto ler em breve. Uma agradável descoberta, só possível graças à minha ignorância, pelo que agradeço a esta grande Entidade Universal.
Alverca, 19 de Janeiro de 2003.
Li em poucas penadas este romance de Italo Calvino. Foi a minha primeira incursão pela obra deste aclamado escritor italiano. Ocorreu-me que este escritor tem dois nomes bastante significativos, o que, sei-o bem, não vem a propósito.
Trata-se O Cavaleiro Inexistente de um romance de cavalaria, ou melhor de uma paródia a este género literário, aliás, de vetustez assinalável. Deve ter surgido com a nobre arte da cavalaria. Há, claro, algo mais nesta obra que essa paródia. Escrita em 1952, é fácil de adivinhar a tendência do autor na altura, não querendo, longe disso, situar ou catalogar o romance. No entanto é recorrente a sensação do existencialismo literário ao ler-se este livro.
Não há nesta sensação qualquer indício de exclusividade, ou seja, é mais que isso. A questão do Ser é tema central da obra, mas não único. O estilo fluído e rápido, a habilidade da freira que narra a obra e que nos surpreende no fim, conferem ao Cavaleiro Inexistente um cariz de obra circular, completa, suficiente. Para nada serviria o existencialismo, caso Calvino o não quisesse. Mas quis e ainda bem.
Falarei agora das personagens. Em primeiro lugar, Agilulfo, o cavaleiro que é só a armadura, que não existe. Trata-se de um homem, enfim, um pouco metafísico, mas um homem, que representa o ideal da cavalaria. O arquétipo do cavaleiro heróico e errante. Para tal, a ausência de estômago, logo de fome e sede, a falta do restante trato digestivo, logo de mundanas necessidades, de órgãos sexuais, logo de luxúria e excitação animalesca, confere à personagem todas as qualidades necessárias. Se a tal acrescentar a destreza com as armas, a impenetrabilidade da sua armadura, sempre impecável, e a sua extrema organização e zelo, temos o cavaleiro perfeito. Perfeito, logo, não existe.
Trata-se de uma obra silogística. Se não tem corpo, não tem fraquezas, então é perfeito. O mesmo se passa com outras personagens, com o Gúrdulu, por exemplo, que pela força de tanto existir se confunde com o que existe para além dele. Lembra-me o Sartre. Isso mesmo, o Sartre. Que ainda era pouco conhecido em 1952, mas já o era pelo Calvino.
A Bradamante, cavaleira misteriosa, sensual e perfeita, ou quase, que desdenha à força de tanto ter experimentado, de todos, menos de Agilulfo. Todos os outros paladinos tinham estômago, cheiravam mal, tinham desagradáveis apetites sexuais. Eram humanos. A dualidade “humano – divino” e a busca por uma das partes por excesso da outra, aparece com a cavaleira.
Cavaleira por quem Rambaldo, flamante jovem cavaleiro com desejo de vingança, se apaixona. A satírica secção de Vinganças gerida pelo Agilulfo é anedótica. Kafka também ajuda Agilulfo nos seus excessos de zelo. Este rapaz tem tanto de divino como de humano, é a conclusão que tiro. É um Homem. Que no fim fica com Bradamante.
Apresentadas as personagens, resta dizer que este livro se engloba num conjunto de três, sendo um dos quais o famigerado Barão Trepador, que conto ler em breve. Uma agradável descoberta, só possível graças à minha ignorância, pelo que agradeço a esta grande Entidade Universal.
Alverca, 19 de Janeiro de 2003.
“Homem Duplicado”, José Saramago
Acabei de ler "O Homem Duplicado" do inefável Saramago. Falar-te-ei de forma não mais que qualitativa, não descreverei uma linha que seja da obra, não me perdoaria se o fizesse. A obra vive, em parte, do inesperado.
Começa rápida, entra imediatamente ou quase no assunto. Segue-se ao começo uma longa fase introdutória, pouco narrativa, onde o Saramago avança aos poucos, preso a pormenores, tece considerações de toda a índole. Revisita obras passadas, dele, por pouco não cita, simula, espreguiça-se, e quem sente a doçura da preguiça é o leitor. Um lento passeio pelo estilo que estigmatiza, mas com um sólido, inexorável e preparatório avanço no enredo.
Cria um clima afável, simpático, descontraído. Mas... A derradeira parte do livro conhece um crescendo, um ataque, uma violência, uma tensão inacreditável. Com uma técnica de virtuoso, Saramago arrasta-nos impiedoso, golpe atrás golpe, qual mastim com a presa nos dentes, até nos desfazer por completo, aventando-nos bruscamente contra uma parede.
Uma obra genial. Mostra o que se pode fazer quando se é Saramago. Ridiculariza, fazendo-os explodir em miríades de cintilantes pedaços de vidro demasiado pintado, os mestres do policial. Saramago exercita todo o seu estilo, toda a sua categoria, visita campos que não os dele. Que digo eu? Ele é senhor de todos os campos. Raios partam o homem, é demasiado bom. Chiça!
Acabei de ler "O Homem Duplicado" do inefável Saramago. Falar-te-ei de forma não mais que qualitativa, não descreverei uma linha que seja da obra, não me perdoaria se o fizesse. A obra vive, em parte, do inesperado.
Começa rápida, entra imediatamente ou quase no assunto. Segue-se ao começo uma longa fase introdutória, pouco narrativa, onde o Saramago avança aos poucos, preso a pormenores, tece considerações de toda a índole. Revisita obras passadas, dele, por pouco não cita, simula, espreguiça-se, e quem sente a doçura da preguiça é o leitor. Um lento passeio pelo estilo que estigmatiza, mas com um sólido, inexorável e preparatório avanço no enredo.
Cria um clima afável, simpático, descontraído. Mas... A derradeira parte do livro conhece um crescendo, um ataque, uma violência, uma tensão inacreditável. Com uma técnica de virtuoso, Saramago arrasta-nos impiedoso, golpe atrás golpe, qual mastim com a presa nos dentes, até nos desfazer por completo, aventando-nos bruscamente contra uma parede.
Uma obra genial. Mostra o que se pode fazer quando se é Saramago. Ridiculariza, fazendo-os explodir em miríades de cintilantes pedaços de vidro demasiado pintado, os mestres do policial. Saramago exercita todo o seu estilo, toda a sua categoria, visita campos que não os dele. Que digo eu? Ele é senhor de todos os campos. Raios partam o homem, é demasiado bom. Chiça!
“Histórias à Volta da Mesa” de Óscar Wilde
A Coisas de Ler publicou, no passado mês de Maio uma tradução para português das Histórias à Volta da Mesa de Oscar Wilde. Numa época em que a maior parte das publicações em Portugal se encontra mergulhada na mais negra mediocridade, é com regozijo que se assiste à edição de obras desta magnitude. Sendo natural que a produção anual de bons autores portugueses não seja suficiente para todas as editoras activas no mercado livreiro, é com resignação que se aceita a publicação das novas vagas literárias, de autores, na sua maioria autoras, que primam por uma indigência no que a conteúdo respeita que raia os limites da iletracia..
O que já não será tão facilmente explicável é a proliferação de traduções de obras igualmente indigentes de autores tão ou menos brilhantes que os nossos menos felizes exemplares. Posto este cenário, torna-se evidente a importância que uma publicação como a que trata este artigo assume na manutenção da saúde mental dos portugueses, no combate à iletracia.
Este texto reúne um conjunto de transcrições de histórias que Wilde contaria nas suas aparições sociais, que foram, durante toda a sua vida, muito frequentes. Em Paris, onde sempre foi estimado, falou que se fartou e contava as mirabolantes histórias que neste livro se recolhem.
Esta antologia, escrita por pena alheia ao escritor, possui, como seria de esperar dada a heterogeneidade das fontes, transmite ao leitor toda a pujança criativa do génio de Wilde. A originalidade das histórias, a amoralização das mesmas torna-se tão mais genial quando se atentar à época em que foram contadas, o ainda não muito moderno final do século XIX. A leveza do estilo, a extrema elegância e concepção estética são atributos bem patentes nas obras do autor. Neste livro sobressai a magia do poder criativo do escritor.
Algo que torna ainda mais transcendente esta obra é a percepção da infinidade do talento de Wilde. O facto de ser esta colectânea de histórias evidentemente uma pequena parte do repertório de Wilde leva o leitor a imaginar o que seria ouvi-lo durante horas a fio, como fizeram os privilegiados parisienses.
Os contos bíblicos prendem especialmente a atenção dada a audácia dos mesmos, o ponto de vista humano das lendas de santos e dos textos sagrados para os cristãos, sempre visto com tanta reserva pelos espíritos fechados, não deixa de ser assinalável o facto de ele os contar no século XIX, quando sabemos as dificuldades que os escritores de hoje têm ainda de escrever sobre o que é sagrado. Espanta que ainda seja tão difícil poder ter uma maneira diferente de ver aquilo de que muitos julgam saber a verdade.
A prespectiva de Wilde é, no entanto, mística. Longe do agnosticismo de Saramago, longe do pós-modernismo de Rushdie e do existencialismo de Sartre.
A Coisas de Ler publicou, no passado mês de Maio uma tradução para português das Histórias à Volta da Mesa de Oscar Wilde. Numa época em que a maior parte das publicações em Portugal se encontra mergulhada na mais negra mediocridade, é com regozijo que se assiste à edição de obras desta magnitude. Sendo natural que a produção anual de bons autores portugueses não seja suficiente para todas as editoras activas no mercado livreiro, é com resignação que se aceita a publicação das novas vagas literárias, de autores, na sua maioria autoras, que primam por uma indigência no que a conteúdo respeita que raia os limites da iletracia..
O que já não será tão facilmente explicável é a proliferação de traduções de obras igualmente indigentes de autores tão ou menos brilhantes que os nossos menos felizes exemplares. Posto este cenário, torna-se evidente a importância que uma publicação como a que trata este artigo assume na manutenção da saúde mental dos portugueses, no combate à iletracia.
Este texto reúne um conjunto de transcrições de histórias que Wilde contaria nas suas aparições sociais, que foram, durante toda a sua vida, muito frequentes. Em Paris, onde sempre foi estimado, falou que se fartou e contava as mirabolantes histórias que neste livro se recolhem.
Esta antologia, escrita por pena alheia ao escritor, possui, como seria de esperar dada a heterogeneidade das fontes, transmite ao leitor toda a pujança criativa do génio de Wilde. A originalidade das histórias, a amoralização das mesmas torna-se tão mais genial quando se atentar à época em que foram contadas, o ainda não muito moderno final do século XIX. A leveza do estilo, a extrema elegância e concepção estética são atributos bem patentes nas obras do autor. Neste livro sobressai a magia do poder criativo do escritor.
Algo que torna ainda mais transcendente esta obra é a percepção da infinidade do talento de Wilde. O facto de ser esta colectânea de histórias evidentemente uma pequena parte do repertório de Wilde leva o leitor a imaginar o que seria ouvi-lo durante horas a fio, como fizeram os privilegiados parisienses.
Os contos bíblicos prendem especialmente a atenção dada a audácia dos mesmos, o ponto de vista humano das lendas de santos e dos textos sagrados para os cristãos, sempre visto com tanta reserva pelos espíritos fechados, não deixa de ser assinalável o facto de ele os contar no século XIX, quando sabemos as dificuldades que os escritores de hoje têm ainda de escrever sobre o que é sagrado. Espanta que ainda seja tão difícil poder ter uma maneira diferente de ver aquilo de que muitos julgam saber a verdade.
A prespectiva de Wilde é, no entanto, mística. Longe do agnosticismo de Saramago, longe do pós-modernismo de Rushdie e do existencialismo de Sartre.
"Discurso sobre o filho da puta" de Alberto Pimenta
Tudo começou com a morte do realizador de cinema, César Monteiro. Ao folhear o Público na livraria “O Paço” do Lumiar, dei com uma frase do realizador que dizia algo semelhante a isto: “Gosto muito da expressão filho da puta. O meu sonho desde há muitos anos é ser presente a tribunal e quando o juiz me dissesse: Levante-se o réu, eu responderia: Levante-se você, seu filho da puta!”.
O dono da livraria, ao ouvir essa frase, perguntou-me se eu conhecia o discurso sobre o filho da puta, do Pimenta. Não, respondi.
Passado cerca de um mês, fui à livraria e aguardava-me o exemplar do próprio livreiro, pode levar emprestado se quiser. Claro que quero, então leve. Levei e li.
Trata-se de uma espécie de poema, fortemente interventivo e satírico em que o autor faz uma descrição fabulosa de um tipo de gente, a que ele, e nós todos, chama filho da puta. Como vivem, o que os move, como se reproduzem, como nascem, está tudo lá. Uma maravilha da escrita, com um estilo à manifesto, repetindo ad infinitum as palavras filho e puta. No fundo, é uma reflexão sobre a natureza do homem, no seu pior. Sobre a mesquinhez, a miséria mental, a filhadeputice que todos tão bem conhecem.
Tudo se prende a uma questão de atitude face à vida, parece ser a explicação de Alberto Pimenta. Para ele, o filho da puta é o tipo que detesta a vida, para quem tudo é, ou deve ser, complicado, para quem a vida é um frete e que detesta todos os que vivem despreocupados. A obra foca muito esse ponto. A despreocupação face à vida torna-se o aspecto essencial, que distingue o que é do que não é filho da puta.
Revi, como qualquer um fará ao ler o livro, um conjunto de malta conhecida, bem escarrapachada naquelas linhas. Serviu-me a leitura para um refrescar de questões de atitude. Para me lembrar que a vida é por definição o que importa, a única coisa que importa. E que viver é ser apaixonado, dedicado e descontraído. É ter humor e dar às coisas a importância que elas têm. É pensar menos no que os outros pensam ou podem pensar.
Se há linhas que merecem a pena ser lidas, as do Pimenta estão lá.
Alverca, 2 de Março de 2003.
Tudo começou com a morte do realizador de cinema, César Monteiro. Ao folhear o Público na livraria “O Paço” do Lumiar, dei com uma frase do realizador que dizia algo semelhante a isto: “Gosto muito da expressão filho da puta. O meu sonho desde há muitos anos é ser presente a tribunal e quando o juiz me dissesse: Levante-se o réu, eu responderia: Levante-se você, seu filho da puta!”.
O dono da livraria, ao ouvir essa frase, perguntou-me se eu conhecia o discurso sobre o filho da puta, do Pimenta. Não, respondi.
Passado cerca de um mês, fui à livraria e aguardava-me o exemplar do próprio livreiro, pode levar emprestado se quiser. Claro que quero, então leve. Levei e li.
Trata-se de uma espécie de poema, fortemente interventivo e satírico em que o autor faz uma descrição fabulosa de um tipo de gente, a que ele, e nós todos, chama filho da puta. Como vivem, o que os move, como se reproduzem, como nascem, está tudo lá. Uma maravilha da escrita, com um estilo à manifesto, repetindo ad infinitum as palavras filho e puta. No fundo, é uma reflexão sobre a natureza do homem, no seu pior. Sobre a mesquinhez, a miséria mental, a filhadeputice que todos tão bem conhecem.
Tudo se prende a uma questão de atitude face à vida, parece ser a explicação de Alberto Pimenta. Para ele, o filho da puta é o tipo que detesta a vida, para quem tudo é, ou deve ser, complicado, para quem a vida é um frete e que detesta todos os que vivem despreocupados. A obra foca muito esse ponto. A despreocupação face à vida torna-se o aspecto essencial, que distingue o que é do que não é filho da puta.
Revi, como qualquer um fará ao ler o livro, um conjunto de malta conhecida, bem escarrapachada naquelas linhas. Serviu-me a leitura para um refrescar de questões de atitude. Para me lembrar que a vida é por definição o que importa, a única coisa que importa. E que viver é ser apaixonado, dedicado e descontraído. É ter humor e dar às coisas a importância que elas têm. É pensar menos no que os outros pensam ou podem pensar.
Se há linhas que merecem a pena ser lidas, as do Pimenta estão lá.
Alverca, 2 de Março de 2003.
Avenida Névski de Nikolai Gógol
No pequeno livro da Assírio & Alvim, encontra-se, traduzido pelos Guerra, Nina e Filipe, uma deliciosa novela de Nikolai Gógol, a Avenida Névski.
Falando de uma rua, Gógol retrata dois episódios de duas distintas existências, a de Piskariov e de Pigorov, sendo o primeiro um pintor e o segundo um tenente do exército russo.
Tudo começa com uma notável descrição da Avenida do título, com as pessoas, as lojas, a azáfama, as horas de movimento e as outras, uma admirável recolha de estereótipos da São Petersburgo de meados do século XIX. E já que de estereótipos se fala, avente-se este lugar comum, bem podiam as personagens de Gógol ser de outros tempos quaisquer.
O que no entanto sucede às pessoas, as suas mentalidades como conjunto, ou seja, o aspecto social, esse sim é datado, mas, e não é sempre assim, os seres humanos quando analisados isoladamente mudam pouco com os séculos, alteram-se com os milénios, não com menos que isso.
De Piskariov, o pintor, fica a imagem romântica, patética, de um tipo que se enamora com uma prostituta que persegue na Avenida com quem sonha, com quem almeja casar, retirando-a da desgraça que a assolou. O desfecho é previsível, a moça não está interessada em mudar a sua vida, em ser lavadeira ou cerzideira, quer manter-se tal como está. Em suma, não quer ser salva pelo fogoso ainda que tímido artista. E não foi e o pintor morreu, suicidado.
Já na história de Pigorov, encontra-se uma figura quase oposta à de Piskariov, trata-se de um oficial, com o rei na barriga e convencido da sua irresistibilidade ante as indefesas moças. Ao perseguir uma outra moça (assim começa a história, ambos os rapazes se separam na Avenida Névski perseguindo cada qual a sua cachopa) embarca numa humilhante aventura.
A rapariga loura, alemã, bonita e pouco brilhante que ele persegue nada quer com ele, e logo a ele, rapaz pouco habituado a negas. Mas assim foi e tanto insistiu o garboso jovem na conquista da dama que acabou sovado pelo marido e respectivos amigos, todos alemães e todos comerciantes.
Vale a segunda parte da novela pela magnífica e actual descrição dos alemães, dos russos e até dos ingleses. Uma vez mais os estereótipos, mas não é a realidade que conta ou que caracteriza os povos. Disse Eça e com razão que só a literatura pode efectuar tal desígnio, e eu acrescento, só a literatura cria os povos, só ela os sabe distinguir. E para que se saiba onde li eu isso, foi Carlos Reis, na sua Introdução aos Estudos Literários quem me disse.
Alverca, 14 de Novembro de 2003.
No pequeno livro da Assírio & Alvim, encontra-se, traduzido pelos Guerra, Nina e Filipe, uma deliciosa novela de Nikolai Gógol, a Avenida Névski.
Falando de uma rua, Gógol retrata dois episódios de duas distintas existências, a de Piskariov e de Pigorov, sendo o primeiro um pintor e o segundo um tenente do exército russo.
Tudo começa com uma notável descrição da Avenida do título, com as pessoas, as lojas, a azáfama, as horas de movimento e as outras, uma admirável recolha de estereótipos da São Petersburgo de meados do século XIX. E já que de estereótipos se fala, avente-se este lugar comum, bem podiam as personagens de Gógol ser de outros tempos quaisquer.
O que no entanto sucede às pessoas, as suas mentalidades como conjunto, ou seja, o aspecto social, esse sim é datado, mas, e não é sempre assim, os seres humanos quando analisados isoladamente mudam pouco com os séculos, alteram-se com os milénios, não com menos que isso.
De Piskariov, o pintor, fica a imagem romântica, patética, de um tipo que se enamora com uma prostituta que persegue na Avenida com quem sonha, com quem almeja casar, retirando-a da desgraça que a assolou. O desfecho é previsível, a moça não está interessada em mudar a sua vida, em ser lavadeira ou cerzideira, quer manter-se tal como está. Em suma, não quer ser salva pelo fogoso ainda que tímido artista. E não foi e o pintor morreu, suicidado.
Já na história de Pigorov, encontra-se uma figura quase oposta à de Piskariov, trata-se de um oficial, com o rei na barriga e convencido da sua irresistibilidade ante as indefesas moças. Ao perseguir uma outra moça (assim começa a história, ambos os rapazes se separam na Avenida Névski perseguindo cada qual a sua cachopa) embarca numa humilhante aventura.
A rapariga loura, alemã, bonita e pouco brilhante que ele persegue nada quer com ele, e logo a ele, rapaz pouco habituado a negas. Mas assim foi e tanto insistiu o garboso jovem na conquista da dama que acabou sovado pelo marido e respectivos amigos, todos alemães e todos comerciantes.
Vale a segunda parte da novela pela magnífica e actual descrição dos alemães, dos russos e até dos ingleses. Uma vez mais os estereótipos, mas não é a realidade que conta ou que caracteriza os povos. Disse Eça e com razão que só a literatura pode efectuar tal desígnio, e eu acrescento, só a literatura cria os povos, só ela os sabe distinguir. E para que se saiba onde li eu isso, foi Carlos Reis, na sua Introdução aos Estudos Literários quem me disse.
Alverca, 14 de Novembro de 2003.
“A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstoi
É de doença, degeneração e decadência que fala esta novela de Tolstoi. É uma obra assustadora e até quase ao final, assaz deprimente. Ao assistirmos à decadência de um homem, arrastamo-nos com ele, padecemos dos seus males, tal é a técnica do mestre.
No final dá-se uma transformação do tom, uma nova moral nasce, a redenção daquela alma, a visita do padre que lhe traz o último sacramento, acabam por iluminar finalmente a existência até então postiça e pálida de Ivan.
Afinal, Ivan vivia uma vida insignificante, sem ter conhecido o amor, sem ter conhecido nada sem ser o seu trabalho de funcionário, de pequeno juiz, dono de ainda mais pequeno poder, da sua medíocre jactância, enfim, só com a doença e a avançada degeneração se apercebeu que, talvez fosse a morte a sua maior bênção. O outro Ivan, no entanto, manteve as suas aparições, em alternância, com o apego animal à vida.
No fim sobreveio a revolta, patente na sua afirmação, já moribundo, em que diz à sua família que finalmente se vão ver livres dele. Aqui se desenha o fracasso da sua existência que nem à sua família soube agradar, que mesmo aos amigos do whist, com quem jogava, salvo o erro, às quintas-feiras, lhe sentiram muito a falta. Um deles avantajava-se já na busca pelo seu lugar, aos outros tanto lhes fazia. Só um deles se dignou a interromper a partida para dar um salto ao velório de Ivan Ilitch.
Trata-se de uma obra notável pela intensidade da narrativa, pela riqueza da única personagem trabalhada, o próprio Ivan, riqueza que afinal se revela mediocridade e medo. Um ser humano vulnerável e frágil, um ser humano como tantos outros, como quase todos os outros. Rico porque abrangente, porque representativo, porque muito real.
Alverca, 2 de Março de 2003
É de doença, degeneração e decadência que fala esta novela de Tolstoi. É uma obra assustadora e até quase ao final, assaz deprimente. Ao assistirmos à decadência de um homem, arrastamo-nos com ele, padecemos dos seus males, tal é a técnica do mestre.
No final dá-se uma transformação do tom, uma nova moral nasce, a redenção daquela alma, a visita do padre que lhe traz o último sacramento, acabam por iluminar finalmente a existência até então postiça e pálida de Ivan.
Afinal, Ivan vivia uma vida insignificante, sem ter conhecido o amor, sem ter conhecido nada sem ser o seu trabalho de funcionário, de pequeno juiz, dono de ainda mais pequeno poder, da sua medíocre jactância, enfim, só com a doença e a avançada degeneração se apercebeu que, talvez fosse a morte a sua maior bênção. O outro Ivan, no entanto, manteve as suas aparições, em alternância, com o apego animal à vida.
No fim sobreveio a revolta, patente na sua afirmação, já moribundo, em que diz à sua família que finalmente se vão ver livres dele. Aqui se desenha o fracasso da sua existência que nem à sua família soube agradar, que mesmo aos amigos do whist, com quem jogava, salvo o erro, às quintas-feiras, lhe sentiram muito a falta. Um deles avantajava-se já na busca pelo seu lugar, aos outros tanto lhes fazia. Só um deles se dignou a interromper a partida para dar um salto ao velório de Ivan Ilitch.
Trata-se de uma obra notável pela intensidade da narrativa, pela riqueza da única personagem trabalhada, o próprio Ivan, riqueza que afinal se revela mediocridade e medo. Um ser humano vulnerável e frágil, um ser humano como tantos outros, como quase todos os outros. Rico porque abrangente, porque representativo, porque muito real.
Alverca, 2 de Março de 2003
domingo, julho 03, 2005
A Casa de Fernanda Alba
A peça "A Casa de Fernanda Alba", em cartaz no Teatro Municipal São Luís, é da autoria de Federico Garcia Lorca. A encenação ficou a cargo de Diogo Infante.
Fui vê-la ontem, 2 de Julho de 2005, e pude observar, numa sala quase cheia, o genial cenário, uma espécie de laje branca, com uma abertura em jeito de clarabóia de onde se podia apreciar a espessura da mesma.
A peça "A Casa de Fernanda Alba", em cartaz no Teatro Municipal São Luís, é da autoria de Federico Garcia Lorca. A encenação ficou a cargo de Diogo Infante.
Fui vê-la ontem, 2 de Julho de 2005, e pude observar, numa sala quase cheia, o genial cenário, uma espécie de laje branca, com uma abertura em jeito de clarabóia de onde se podia apreciar a espessura da mesma.